Engenharia de software e inovação: como melhorar a qualidade dos produtos digitais?

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira
Carmen Bellori Por Carmen Bellori
5 Min de leitura

Um produto digital pode ter uma interface elegante e ainda assim falhar no momento em que mais importa: quando o usuário depende dele. Times de desenvolvimento correm contra prazos apertados, empilham funcionalidades novas a cada sprint e, no meio dessa pressão, a qualidade do software costuma virar a variável que cede primeiro. O resultado aparece depois, em forma de bug em produção, retrabalho e confiança perdida.

Reverter esse quadro exige tratar qualidade como parte do processo de engenharia, não como etapa de conferência ao final. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, CTO com atuação em arquitetura de sistemas e desenvolvimento de software, destaca que produtos digitais confiáveis nascem de decisões tomadas cedo, no desenho da solução, e não apenas de testes aplicados depois que o código já está pronto.

Por que a qualidade não pode ser etapa final da engenharia de software?

Durante anos, grande parte das equipes tratou qualidade como uma fase, geralmente a penúltima antes do lançamento. O time de desenvolvimento escrevia o código, e só depois entrava a validação, muitas vezes sob pressão de prazo e com pouco espaço para corrigir decisões estruturais já tomadas. Esse modelo funciona até o produto crescer: a partir daí, cada ajuste tardio custa mais tempo e mais recursos do que custaria se tivesse sido pensado desde o início.

Colocar a qualidade dentro do próprio desenho da arquitetura muda essa lógica. Definir critérios de aceite antes de escrever a primeira linha de código, mapear cenários de falha durante o planejamento e envolver quem testa desde a concepção da funcionalidade reduzem o volume de correções que aparecem só quando o produto já está em uso real.

Como a revisão de código evita que falhas cheguem ao usuário?

A revisão de código é uma das práticas mais diretas para conter erros antes que avancem pelo pipeline. Quando outro desenvolvedor lê, questiona e testa um trecho antes de aprová-lo, padrões de nomenclatura, tratamento de exceções e lógica de negócio passam por um segundo filtro que o autor original, mergulhado no próprio raciocínio, dificilmente aplicaria sozinho.

Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira
Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira

O ganho vai além de encontrar bugs pontuais. Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira indica que revisões consistentes criam um vocabulário técnico comum entre desenvolvedores de níveis diferentes, o que reduz divergências de estilo e facilita a manutenção do sistema por qualquer pessoa do time, não só por quem escreveu o código originalmente.

De que forma a automação de testes reduz falhas em produção?

Testes manuais cobrem cenários previstos, mas dificilmente acompanham o ritmo de mudanças de um produto em evolução constante. Suítes automatizadas, por outro lado, rodam a cada alteração de código, comparam o comportamento esperado com o resultado real e sinalizam quebras antes que cheguem ao ambiente de produção, onde o custo de corrigir um erro é sempre maior.

Automação não substitui o julgamento humano sobre o que testar, pondera Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira, mas amplia a cobertura possível sem exigir que a equipe repita manualmente as mesmas verificações a cada entrega. A folga gerada nesse processo permite que desenvolvedores dediquem atenção a cenários mais complexos, justamente onde a automação tem menos alcance.

O que a dívida técnica revela sobre o futuro dos produtos digitais?

Toda decisão tomada sob pressão de prazo deixa um rastro no código. Atalhos que funcionam no curto prazo se acumulam e formam o que a área de tecnologia chama de dívida técnica: soluções provisórias que nunca foram revisitadas e que, com o tempo, tornam qualquer mudança mais lenta e mais arriscada.

Ignorar essa dívida por tempo demais compromete não só a velocidade de entrega, mas a própria capacidade da empresa de inovar, pois cada nova funcionalidade passa a exigir mais esforço só para não quebrar o que já existe, ressalta Jean Pierre Lessa e Santos Ferreira. Produtos digitais duradouros são aqueles cuja engenharia trata qualidade como investimento contínuo, não como conserto de emergência.

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