Evitando disputas: A perspectiva de Rodrigo Gonçalves Pimentel sobre governança em empresas familiares

Rodrigo Gonçalves Pimentel
Diego Velázquez Por Diego Velázquez
7 Min de leitura

Rodrigo Gonçalves Pimentel, advogado e filho do desembargador Sideni Soncini Pimentel, observa que toda empresa familiar carrega, em sua estrutura, uma tensão latente entre dois sistemas de relacionamento que operam por lógicas distintas. A família funciona por afeto, lealdade e história compartilhada. A empresa funciona por metas, resultados e hierarquia funcional. Quando esses dois sistemas colidem sem regras claras que os separem, o resultado quase sempre é o conflito societário, que raramente surge de má-fé entre os membros da família, mas da ausência de estruturas que organizem as relações de poder, de interesse e de expectativa dentro do negócio.

Continue a leitura para entender como a governança corporativa atua na prevenção dessas disputas e por que agir antes do conflito é sempre a decisão mais inteligente.

Por que empresas familiares são especialmente vulneráveis a conflitos societários?

A vulnerabilidade das empresas familiares aos conflitos societários tem raízes estruturais que vão além das personalidades envolvidas. Em uma empresa não familiar, as relações de poder são organizadas por hierarquia funcional e critérios de desempenho. Em uma empresa familiar, essas mesmas relações se misturam com vínculos afetivos, histórias de vida e expectativas construídas ao longo de gerações, criando um ambiente em que decisões profissionais raramente são percebidas como puramente profissionais.

Rodrigo Gonçalves Pimentel
Rodrigo Gonçalves Pimentel

Rodrigo Gonçalves Pimentel nota que o maior catalisador de conflitos societários em empresas familiares é a ausência de regras previamente acordadas para as situações mais previsíveis: quem pode assumir cargos de liderança, como se dá a distribuição de lucros, o que acontece quando um sócio quer sair e como decisões estratégicas são tomadas quando há divergência entre os membros da família. 

Quais são os conflitos societários mais comuns em empresas familiares?

Os conflitos societários em empresas familiares tendem a se manifestar em torno de temas recorrentes, independentemente do setor de atuação ou do tamanho do negócio. Conhecer esses padrões é o primeiro passo para estruturar mecanismos de prevenção eficazes. Entre os mais frequentes estão:

  • As disputas por cargos de liderança, especialmente quando há mais de um herdeiro com interesse ou expectativa de assumir posições executivas, sem que existam critérios claros e previamente definidos para essa decisão;
  • Os conflitos sobre distribuição de resultados, que surgem quando sócios com perfis e necessidades financeiras distintas divergem sobre o quanto deve ser distribuído como dividendos e o quanto deve ser reinvestido no negócio;
  • As tensões geradas pela entrada de cônjuges ou de novos membros na estrutura societária, especialmente quando não há regras claras sobre os direitos e os limites de participação dessas pessoas nas decisões da empresa;
  • As disputas sobre o valor e a forma de saída de um sócio que deseja se retirar da estrutura, situação que, sem previsão contratual adequada, frequentemente resulta em processos judiciais longos e desgastantes para todas as partes.

Cada um desses conflitos tem uma característica em comum: é perfeitamente previsível e, portanto, perfeitamente evitável por meio de instrumentos jurídicos adequados implementados com antecedência.

Como a governança corporativa previne conflitos antes que eles se instalem?

A governança corporativa atua na prevenção de conflitos societários por um mecanismo simples e poderoso: ela transforma situações potencialmente conflituosas em procedimentos institucionais com regras previamente acordadas. Quando a família sabe, de antemão, como determinada situação será tratada, o espaço para disputas baseadas em interpretações divergentes se reduz drasticamente, e o conflito, quando surge, encontra um caminho institucional de resolução em vez de se transformar em uma disputa pessoal.

Segundo Rodrigo Gonçalves Pimentel, os instrumentos centrais dessa prevenção são o acordo de sócios, o estatuto social e o conselho de administração. O acordo de sócios estabelece as regras para as situações mais previsíveis, como entrada e saída de sócios, distribuição de resultados e critérios para acesso a cargos de liderança. O estatuto social organiza a estrutura de poder e de decisão dentro da empresa. O conselho de administração cria um fórum institucional onde divergências estratégicas são debatidas e resolvidas com base em critérios objetivos, antes de se tornarem conflitos pessoais entre membros da família.

Como o acordo de sócios reduz a exposição a disputas judiciais?

O acordo de sócios é, dentro da arquitetura de governança de uma empresa familiar, o instrumento mais diretamente voltado à prevenção de litígios. Ele antecipa as situações de maior potencial conflituoso e estabelece, para cada uma delas, um procedimento claro de resolução que as partes já aceitaram previamente, em um momento de harmonia e sem a pressão de um conflito em curso. 

Como destaca Rodrigo Gonçalves Pimentel, um acordo de sócios bem elaborado deve prever não apenas as situações ordinárias da vida societária, mas também os cenários excepcionais que, justamente por serem menos frequentes, tendem a ser os mais conflituosos quando ocorrem. A saída involuntária de um sócio, o falecimento de um dos fundadores, a dissolução de um casamento que afeta a estrutura acionária e a entrada de um novo membro por herança são exemplos de situações que, sem previsão contratual adequada, podem paralisar a empresa e consumir recursos que deveriam estar sendo investidos no crescimento do negócio.

Governança como investimento na longevidade da empresa familiar

Implementar uma estrutura de governança sólida tem custo, exige tempo e demanda conversas que muitas famílias preferem evitar. Mas esse custo é invariavelmente menor do que o custo de um conflito societário não prevenido, seja em termos financeiros, relacionais ou operacionais. Empresas familiares que investem em governança não estão se preparando para o pior. Estão construindo as condições para que o melhor seja possível ao longo do tempo.

Na perspectiva de Rodrigo Gonçalves Pimentel, a governança corporativa é o investimento com o retorno mais consistente dentro de uma empresa familiar. Ela garante  que essas divergências encontrem um caminho institucional de resolução, sem comprometer a continuidade do negócio, sem destruir vínculos familiares construídos ao longo de décadas e sem transformar o patrimônio que deveria unir a família no principal motivo de sua fragmentação.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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