Para Valdoir Slapak, executivo com atuação em administração, finanças, reestruturação empresarial e gestão estratégica, boa parte dos problemas de governança corporativa em empresas de médio porte não vem de má-fé ou incompetência, mas da simples ausência de papéis e responsabilidades claramente definidos. Quando ninguém sabe exatamente quem decide o quê, decisões financeiras relevantes acabam sendo tomadas por quem está mais disponível no momento, e não necessariamente por quem tem a competência ou a informação adequada para decidir.
Por que a ambiguidade de papéis compromete a governança corporativa?
Em muitas empresas familiares e negócios em fase de crescimento, funções financeiras se acumulam de forma orgânica: o fundador aprova despesas, o sócio financeiro assina contratos e o contador toma decisões operacionais que deveriam passar por aprovação estratégica. Segundo Valdoir Slapak, essa sobreposição de papéis parece funcionar enquanto a empresa é pequena, mas se torna um problema sério à medida que o negócio cresce e o volume de decisões financeiras aumenta.
A ambiguidade de papéis gera dois riscos simultâneos: decisões importantes que demoram demais para serem tomadas, porque ninguém tem autoridade clara para decidir sozinho, e decisões arriscadas tomadas rapidamente demais, porque nenhum processo de aprovação foi seguido. Governança corporativa sólida elimina essa ambiguidade ao definir, de forma explícita, quem aprova o quê, em que valor e sob qual condição.
Como estruturar uma matriz de responsabilidades financeiras?
Na avaliação de Valdoir Slapak, a ferramenta mais eficaz para resolver essa ambiguidade é uma matriz simples que associe cada tipo de decisão financeira a um responsável específico e a um limite de alçada. Despesas operacionais do dia a dia podem ter aprovação descentralizada até determinado valor, enquanto investimentos de maior porte, contratação de dívida ou mudanças na política de dividendos exigem aprovação do sócio principal ou de um conselho, quando ele existir.

Valdoir Slapak observa que essa matriz de responsabilidades é um dos pilares práticos da governança corporativa e não precisa ser complexa para funcionar. O mais importante é que ela seja conhecida por todos os envolvidos e efetivamente seguida na prática, e não apenas documentada e esquecida em uma pasta. Empresas que revisam essa matriz periodicamente, ajustando alçadas conforme o negócio cresce, mantêm a governança corporativa alinhada ao porte real da operação.
O papel da separação entre propriedade e gestão na governança corporativa
Um desafio adicional aparece quando os mesmos indivíduos acumulam papéis de sócios e de gestores financeiros, o que dificulta a separação entre interesse pessoal e interesse da empresa em decisões sensíveis. Na leitura de Valdoir Slapak, mesmo em empresas familiares que não pretendem profissionalizar totalmente a gestão no curto prazo, é possível avançar em governança corporativa criando instâncias específicas para decisões que envolvam conflito potencial entre sócios, como distribuição de dividendos ou remuneração de familiares que trabalham na empresa.
Governança corporativa como processo contínuo, não como evento único
Papéis e responsabilidades claras não são um projeto que se conclui e fica pronto para sempre, mas uma prática que precisa ser revisitada conforme a empresa muda de tamanho, entra em novos mercados ou passa por eventos como entrada de sócios ou sucessão familiar. Governança corporativa que não evolui junto com essas transformações tende a se tornar obsoleta rapidamente, voltando a gerar a mesma ambiguidade que originalmente pretendia resolver.
Valdoir Slapak ressalta que empresas que tratam papéis e responsabilidades como parte permanente da agenda de gestão, revisando-os sempre que a estrutura organizacional muda, constroem uma base de governança corporativa mais sólida e menos dependente de pessoas específicas.
Vale reforçar que essa clareza de papéis também facilita processos de sucessão, tanto planejada quanto repentina. Quando um executivo ou sócio precisa se afastar de forma inesperada, uma estrutura de governança corporativa bem definida permite que outras pessoas assumam responsabilidades específicas sem paralisar decisões críticas.
